03/10/2020

                                                                                   Olá!

Segue nosso estudo de sábado às 10 h
Examinando o Sofrimento



Leitura inicial:

180 
Crê e segue 

 “Assim  como tu me enviaste  ao mundo, também eu os  enviei ao mundo.”  
Jesus (João, 17:18)  

Se abraçaste, meu  amigo, a tarefa espiritista­-cristã, em nome da fé sublimada, sedento de vida superior, recorda que o  Mestre te enviou  o coração  renovado ao vasto campo do mundo para servi­lo. 
Não só ensinarás o bom caminho. Agirás de acordo com os princípios elevados que apregoas. 
Ditarás diretrizes nobres para os outros, contudo, marcharás dentro delas, por tua vez. 
Proclamarás a necessidade de bom ânimo, mas seguindo, estrada afora, semeando alegrias e bênçãos, ainda mesmo quando incompreendido de todos. 
Não te contentarás em distribuir moedas e benefícios imediatos. Darás sempre algo de ti mesmo ao que necessita. 
Não somente perdoarás. 
Compreenderás o ofensor, auxiliando-o a reerguer­  se. 
Não criticarás. Encontrarás recursos inesperados de ser útil. Não deblaterarás. Valer-­te-­ás do tempo para materializar os bons pensamentos que te dirigem. 
Não disputarás inutilmente. 
Encontrarás o caminho do serviço  aos semelhantes em qualquer parte. Não viverás simplesmente no combate palavroso contra o mal. Reterás o  bem, semeando­-o com todos. Não condenarás. Descobrirás a luz do amor para fazê-­la brilhar  em teu  coração, até o sacrifício. 
Ora e vigia. Ama e espera. Serve e renuncia. 
Se não te dispões a aproveitar a lição do Mestre Divino, afeiçoando  a própria vida aos seus ensinamentos, a tua fé terá sido vã.

Fonte : Livro Pão Nosso, Francisco Cândido Xavier, pelo Espírito Emmanuel

Trecho do estudo:

Fugir da aflição!
 Libertar-se da dor!
Esquecer... Esquecer que se sofre! – Exclamam os simplistas que pensam em solucionar o magno e palpitante problema do sofrimento não o considerando, como se, ignorando a enfermidade e a dor, a dor e a enfermidade ignorassem o homem.

Muitos dos que se filiaram às diversas correntes religiosas do Cristianismo procuram, por processo de transferência, librar-se acima das águas tumultuadas do sofrer, orando e, na prece, exorando libertação gratuita, como se o papel da Divindade fosse o de arrolar solicitações e atendê-las indiscriminadamente, longe da consideração aos títulos característicos do mérito e do demérito.


Alguns, vinculados às correntes do materialismo filosófico ou científico, fogem em busca do prazer como se este, entorpecendo o caráter, pudesse anular a sede dos registros do passado culposo, libertando os infratores sem a regularização dos seus débitos. E como o prazer não consegue atender a sede de gozo e o gozo da fuga, fogem, desvairados, para os labirintos das drogas estupefacientes, procurando, na consciência em desalinho e em exaltação, uma felicidade a que não fazem jus, uma paz que não merecem.

E o sofrimento – esse ignoto servidor da alma – continua imperturbável no afã de sacudir e despertar mentes, realizando o impositivo divino de reequilíbrio da Lei.

Reponta aqui e surge adiante, de mil formas, falando vigorosa linguagem que somente raros conseguem escutar e entender.


*

Zenão de Cítio, o filósofo grego do IV século antes de Cristo, contemplando o panorama de dor que se apresentava afligente em todo lugar, elaborou o estoicismo, através do qual o desdém às coisas materiais e o culto das virtudes seriam os meios únicos de promover o equilíbrio no homem, desse modo valorizado para vencer a dor, enfrentando-a com nobreza e fé.

Sócrates, o célebre pai da Escola maiêutica e considerado o maior filósofo da Humanidade, encarcerado pela intolerância do ignóbil julgamento dos Heliastas preceituava, mesmo da prisão, o culto da moral e da virtude para vencer o sofrimento, suportando com estoicismo a injusta posição. 

Francisco de Assis, o pobrezinho, desdenhando todas as coisas da Terra, experimentou a zombaria e sofreu aflições sem nome, mantendo a força do amor no exercício das virtudes cristãs, como chave do enigma angustiante do sofrimento. E bendizia a dor!

 Joana D’Arc, encarcerada por circunstâncias óbvias procurou escutar as suas vozes e, animada pelos amigos espirituais que a norteavam, suportou o cárcere, a humilhação e o opróbrio, queimada, após infamante e arbitrário julgamento, chamando por Jesus e superando a própria dor...

Sofrimento é alta concessão divina. 

Dor é moeda de resgate. 

Aflição é exercício para fixação do bem. 

Sem eles ignoraríamos a paz, desconsideraríamos a alegria, maldiríamos a saúde. 

Aquele que sofre está sendo aquinhoado com os exercícios–lições de fixação do bem nas telas mentais.

No leito de dor, na cadeira de rodas, nas amarras ortopédicas; sob os acúleos morais, nos tormentos familiares, nos cipós limitativos das aspirações; no corpo, na mente, na alma; na família, em sociedade, no trabalho; onde esteja a arder e queimar a brasa do sofrimento, agradece a Deus a oportunidade sazonada de reaprender e reparar.

Considera que, enquanto doam as tuas chagas abertas, queimadas por ácidos destruidores, outros companheiros desavisados atiram-se impertinentes pelas sendas da irresponsabilidade, dirigidos por irrefreável loucura, e acalma-te, embora a tormenta que te vergasta...

*

Jesus, tendo elegido o sofrimento como amigo de todas as horas, ensinou-nos sem verbalismo nem retórica que sofrer é ser feliz, e em todos os instantes, sofrendo, exaltou o amor e a bondade como rota de iluminação, pacífico e excelso, prosseguindo imperturbável. 

Mesmo que o teu céu esteja carregado de cúmulos em forma de dores e preocupações, e aparentemente te encontres amesquinhado por angústias ultrizes, caminhando em terrível soledade, levanta, estoico e cristão, a cabeça, descrispa as mãos e torna-as asas de amor para com elas louvar o Senhor no trabalho e no bem com os quais alçarás voo às regiões da liberdade após o resgate que o sofrimento te enseja. 

Recebe-o, pois, com amor e não desvaries.



02/10/2020

 Olá amigos!

Ouçam mais uma poesia de Auta de Souza



Repara a terra pobre, humilde e boa,
Enlameada ao temporal violento... 
A golpes rudes de granizo e vento, 
Olvida em paz a injúria que a magoa. 

Depois, a vida tece-lhe a coroa 
De pétalas luzindo ao firmamento... 
E, feliz ante o mundo desatento, 
Mais se embeleza quanto mais perdoa. 

Assim também, esquece o lodo e a ofensa. 
Que a tormenta de trevas te não vença 
A nobreza dos sonhos redentores!...

Seja o perdão o apoio a que te arrimes, 
E desabrocharás em dons sublimes 
Como a terra insultada ri-se, em flores.

Fonte: Livro Auta de Souza, Francisco Cândido Xavier, pelo Espírito Auta de Souza

01/10/2020

Boa noite companheiros queridos! 

Estamos cansados? Ouçamos Mayse Braga e reflitamos sobre o nosso cansaço.




Auta de Souza

“D era estrela à raiz dava,
vibra esta lei do Senhor:
o tempo apenas conserva
o que se faz por amor.

Ofensa, pedrada, espinho,
injúria, maldade ou lama…
Tudo vence no caminho
o coração de quem ama.

A morte não vence a vida
por muito que a desarrume.
Tomba a rosa fenecida,
o céu recolhe o perfume.

Embora desiludida,
alma cansada e sincera,
por muito te doa a vida,
não desanimes !…Espera !

Arte nobre, ativa e bela
venha de crentes ou ateus,
é sempre luz que revela
a Providência de Deus”.

Francisco Cândido Xavier


 

30/09/2020

                                                                                   Olá!

Segue nosso estudo de quarta feira às 19 h.
A Gênese
Capítulo IV - Papel da Ciência na Gênese




Leitura inicial:

24 - VANTAGENS OCULTAS 

 Todos precisamos de reconforto nos dias de aflição. Isso é justo. Importa, entretanto, observar que a Divina Providência não nos envia dificuldades sem motivo. 
 Entendendo-se que o Senhor não nos relega ás próprias fraquezas e nem permite venhamos a carregar cruzes incompatíveis com as forças que nos caracterizam, fujamos de buscar a consolação por flor estéril. 

* * * 

Aproveitemos a bonança que surge em nós habitualmente após a tormenta íntima para fixarmos o valor que a experiência nos oferece. 
 Não nos propomos a louvar situações embaraçosas e nem a elogiar os fabricantes de problemas, mas é preciso reconhecer as vantagens ocultas decorrentes das provações que nos visitam. 
 Quem conseguiria configurar o abismo a que seríamos arrastados pelos caprichos, aos quais muitas vezes nos entregamos, confiantemente, se a desilusão não viesse despertar-nos? Quem poderia medir os espinheirais de discórdia em que chafurdaríamos o espírito, na equipe de trabalho a que pertencemos, se lutas e lágrimas sofridas em comum não nos ensinassem o benefício do entendimento e da união? 

* * * 
Ingratidão, em muitas circunstâncias, é o nome da bênção com que a Infinita Bondade de Deus nos afasta de ambientes determinados, a fim de que a cegueira não nos induza ao desequilíbrio. Obstáculo, no dicionário da realidade, em muitas ocasiões expressa apoio invisível para que não descambemos na direção das trevas. 

* * * 

Nossas provas - nossas bênçãos.

 * * * 
Reflete nos males maiores que nos alcançariam fatalmente amanhã, se não fosse o socorro providencial dos males menores de hoje, e reconhecerás que todo contratempo aceito com paciência e serenidade é sempre toque do amor de Deus, alertando-nos o coração e guiando-nos o caminho. 

Fonte: Livro Rumo Certo, Francisco Cândido Xavier, pelo Espírito Emmanuel

Trecho do estudo:



1. A história da origem de quase todos os povos antigos se confunde com a da sua religião, é por isso que seus primeiros livros versavam sobre religião. E como todas as religiões se ligam ao princípio das coisas, que é também o da humanidade, elas deram, sobre a formação e a ordem do universo, explicações em concordância com o estado dos conhecimentos da época e de seus fundadores. Daí resultou que os primeiros livros sagrados foram ao mesmo tempo os primeiros livros de ciência, como foram, durante largo período, o código único das leis civis.

2. Nas eras primitivas, sendo necessariamente muito imperfeitos os meios de observação, muito eivadas de erros grosseiros haviam de ser as primeiras teorias sobre o sistema do mundo. Mas, ainda quando esses meios fossem tão completos quanto o são hoje, os homens não teriam sabido utilizá-los. Aliás, tais meios não podiam ser senão fruto do desenvolvimento da inteligência e do consequente conhecimento das leis da natureza. À medida que o homem se foi adiantando no conhecimento dessas leis, também foi penetrando os mistérios da criação e retificando as ideias que formara acerca da origem das coisas.

3. Impotente se mostrou o homem para resolver o problema da Criação, até o momento em que a Ciência lhe forneceu para isso a chave. Teve de esperar que a Astronomia lhe abrisse as portas do espaço infinito e lhe permitisse mergulhar aí o olhar; que, pelo poder de cálculo, determinasse com rigorosa exatidão o movimento, a posição, o volume, a natureza e o papel dos corpos celestes; que a Física lhe revelasse as leis da gravitação, do calor, da luz e da eletricidade; que a Química lhe mostrasse as transformações da matéria e a Mineralogia os materiais que formam a superfície do  globo; que a Geologia lhe ensinasse a ler, nas camadas terrestres, a formação gradual desse mesmo globo. À Botânica, à Zoologia, à Paleontologia, à Antropologia coube iniciá-lo na filiação e sucessão dos seres organizados. Com a Arqueologia pôde ele acompanhar os traços que a humanidade deixou através das idades. Numa palavra, completando-se umas às outras, todas as ciências houveram de contribuir com o que era indispensável para o conhecimento da história do mundo. Em falta dessas contribuições, teve o homem como guia as suas primeiras hipóteses.
Por isso, antes que ele entrasse na posse daqueles elementos de apreciação, todos os comentadores da Gênese, cuja razão esbarrava em impossibilidades materiais, giravam dentro de um círculo, sem conseguirem dele sair. Só o lograram, quando a Ciência abriu caminho, fendendo o velho edifício das crenças. Tudo então mudou de aspecto. Uma vez achado o fio condutor, as dificuldades prontamente se aplanaram. Em vez de uma Gênese imaginária, surgiu uma Gênese positiva e, de certo modo, experimental. O campo do universo se distendeu ao infinito. Acompanhou-se a formação gradual da Terra e dos astros, segundo leis eternas e imutáveis, que demonstram muito melhor a grandeza e a sabedoria de Deus, do que uma criação miraculosa, tirada repentinamente do nada, qual mutação à vista, por efeito de súbita ideia da Divindade, após uma eternidade de inação. 
Pois que é impossível se conceba a Gênese sem os dados que a Ciência fornece, pode dizer-se com inteira verdade que: a Ciência é chamada a constituir a verdadeira Gênese, segundo a lei da natureza

4. No ponto a que chegou no século XIX, venceu a Ciência todas as dificuldades do problema da Gênese? 
Não, decerto; mas não há contestar que destruiu, sem remissão, todos os erros capitais e lhe lançou os fundamentos essenciais sobre dados irrecusáveis. Os pontos ainda duvidosos não passam, a bem dizer, de questões de minúcias, que a sua solução, qualquer que venha a ser no futuro, não poderá prejudicar o conjunto. Ademais, malgrado os recursos que ela há tido à sua disposição, faltou-lhe, até agora, um elemento importante, sem o qual jamais a obra poderia completar-se.

5. De todas as Gêneses antigas, a que mais se aproxima dos modernos dados científicos, apesar dos erros que contém, que são demonstrados hoje até a evidência, é incontestavelmente a de Moisés. Alguns desses erros são mesmo mais aparentes do que reais e provêm, ou de falsa interpretação atribuída a certos termos, cuja primitiva significação se perdeu, ao passarem de língua em língua pela tradução, ou a acepção deles mudou com os costumes dos povos, ou, também, decorrem da forma alegórica peculiar ao estilo oriental e que foi tomada ao pé da letra, em vez de se lhe procurar o espírito, o significado mais fiel.

6. A Bíblia, evidentemente, encerra fatos que a razão, desenvolvida pela Ciência, não poderia hoje aceitar e outros que parecem estranhos e repugnantes, pois derivam de costumes que já não são os nossos. Mas, a par disso, haveria parcialidade em se não reconhecer que ela guarda grandes e belas coisas. A alegoria ocupa ali considerável espaço, ocultando sob o seu véu sublimes verdades, que se patenteiam, desde que se desça ao âmago do pensamento, pois que logo desaparece o absurdo.

Por que então não se lhe ergueu mais cedo o véu? De um lado, por falta de luzes que só a Ciência e uma sã filosofia podiam fornecer e, de outro lado, pelo princípio da imutabilidade absoluta da fé, consequência de um respeito demasiado cego pela letra, ao qual a razão deveria se submeter, e, assim, pelo temor de comprometer a estrutura das crenças, erguida sobre o sentido literal. Partindo tais crenças de um ponto primitivo, houve o receio de que, se se rompesse o primeiro anel da cadeia, todas as malhas da rede acabassem separando-se. Eis por que, apesar de tudo, os olhos se fecharam, mas fechar os olhos ao perigo não é evitá-lo. Quando uma construção se inclina, não manda a prudência que se substituam imediatamente as pedras ruins por pedras boas, em vez de se esperar, pelo respeito que infunda a vetustez do edifício, que o mal se torne irremediável e que se faça preciso reconstruí-lo de cima a baixo?

7. Levando suas investigações às entranhas da Terra e às profundezas dos céus, demonstrou a Ciência, de maneira irrefragável, os erros da Gênese moisaica tomada ao pé da letra e a impossibilidade material de se terem as coisas passado como são ali textualmente referidas. Assim procedendo, a Ciência desferiu fundo golpe nas crenças seculares. A fé ortodoxa ficou combalida, porque julgou que lhe tiravam a pedra fundamental. Mas com quem havia de estar a razão: com a Ciência, que caminhava prudente e progressivamente pelos terrenos sólidos dos algarismos e da observação, sem nada afirmar antes de ter em mãos as provas, ou com uma narrativa escrita quando faltavam absolutamente os meios de observação? No fim de contas, quem há de levar a melhor: aquele que diz 2 e 2 fazem 5 e se nega a verificar, ou aquele que diz que 2 e 2 fazem 4 e o prova?

8. Mas, objetam, se a Bíblia é uma revelação divina, então Deus se enganou. Se não é uma revelação divina, carece de autoridade e a religião desmorona, à falta de base. 
Uma de duas: ou a Ciência está em erro, ou tem razão. Se tem razão, não pode fazer seja verdadeira uma opinião que lhe é contrária. Não há revelação que se possa sobrepor à autoridade dos fatos. Incontestavelmente, não é possível que Deus, sendo todo verdade, induza os homens em erro, nem ciente, nem inscientemente, pois, do contrário, não seria Deus. 
Logo, se os fatos contradizem as palavras que são atribuídas a Ele, o que se deve logicamente concluir é que Ele não as pronunciou, ou que tais palavras foram entendidas em sentido oposto ao que lhes é próprio. Se, com semelhantes contradições, a religião sofre dano, a culpa não é da Ciência, que não pode fazer que o que é deixe de ser; mas dos homens por haverem prematuramente estabelecido dogmas absolutos, de cujo prevalecimento hão feito questão de vida ou de morte, sobre hipóteses suscetíveis de serem desmentidas pela experiência. 
Há coisas com cujo sacrifício temos de resignar-nos, bom ou mau grado nosso, quando não consigamos evitá-lo. Desde que o mundo marcha, sem que a vontade de alguns possa detê-lo, o mais sensato é que o acompanhemos e nos acomodemos com o novo estado de coisas, em vez de nos agarrarmos ao passado que se esboroa, com o risco de sermos arrastados na queda.

9. Por guardar respeito aos textos recebidos como sagrados, dever-se- -ia obrigar a Ciência a calar-se? Fora tão impossível isso, como impedir que a Terra gire. As religiões, sejam quais forem, jamais ganharam coisa alguma em sustentar erros manifestos. A Ciência tem por missão descobrir as leis da natureza. Ora, sendo essas leis obra de Deus, não podem ser contrárias a religiões que se baseiem na verdade. Lançar anátema ao progresso, por atentatório à religião, é lançá-lo à própria obra de Deus. É ademais, trabalho inútil, porquanto nem todos os anátemas do mundo seriam capazes de obstar a que a Ciência avance e a que a verdade abra caminho. Se a Religião se nega a avançar com a Ciência, esta avançará sozinha.

10. Somente as religiões estacionárias podem temer as descobertas da Ciência, as quais só são funestas às que se deixam distanciar pelas ideias progressistas, imobilizando-se no absolutismo de suas crenças. Elas, em geral, fazem tão mesquinha ideia da Divindade, que não compreendem que assimilar as leis da natureza, que a Ciência revela, é glorificar a Deus em suas obras. Na sua cegueira, porém, essas religiões preferem render homenagem ao Espírito do mal, atribuindo-lhe essas leis. Uma religião que não estivesse, por nenhum ponto, em contradição com as leis da natureza, nada teria que temer do progresso e seria invulnerável. 

11. A Gênese se divide em duas partes: a história da formação do mundo material e da humanidade considerada em seu duplo princípio, corporal e espiritual. A Ciência se tem limitado à pesquisa das leis que regem a matéria. No próprio homem, ela apenas há estudado o envoltório carnal. Por esse lado, chegou a inteirar-se, com exatidão, das partes principais do mecanismo do universo e do organismo humano. Assim, sobre esse ponto capital, pôde completar a Gênese de Moisés e retificar-lhe as partes defeituosas.
Mas a história do homem, considerado como ser espiritual, se prende a uma ordem especial de ideias, que não são do domínio da Ciência propriamente dita e das quais, por este motivo, não tem ela feito objeto de suas investigações. A Filosofia, a cujas atribuições pertence, de modo mais particular, esse gênero de estudos, apenas há formulado, sobre o ponto, sistemas contraditórios, que vão desde a mais pura espiritualidade, até a negação do princípio espiritual e mesmo de Deus, sem outras bases, afora as ideias pessoais de seus autores. Tem, pois, deixado sem decisão a questão, por falta de verificação suficiente

12. Esta questão, no entanto, é a mais importante para o homem, por isso que envolve o problema do seu passado e do seu futuro. A do mundo material apenas indiretamente o afeta. O que lhe importa saber, antes de tudo, é donde ele veio e para onde vai, se já viveu e se ainda viverá, qual a sorte que lhe está reservada. Sobre todos esses pontos, a Ciência se conserva muda. 
A Filosofia apenas emite opiniões que concluem em sentido diametralmente oposto, mas que, pelo menos, permitem se discuta, o que faz com que muitas pessoas se lhe coloquem do lado, de preferência a seguirem a religião, que não discute.

13. Todas as religiões são acordes quanto ao princípio da existência da alma, sem, contudo, o demonstrarem. Não o são, porém, nem quanto à sua origem, nem com relação ao seu passado e ao seu futuro, nem, principalmente, e isso é o essencial, quanto às condições de que depende a sua sorte vindoura. Em sua maioria, elas apresentam como o futuro da alma, e impõem à crença de seus adeptos, um quadro que somente a fé cega pode aceitar, visto que não suporta exame sério. Ligado aos seus dogmas, às ideias que nos tempos primitivos se faziam do mundo material e do mecanismo do universo, o destino que elas atribuem à alma não se concilia com o estado atual dos conhecimentos. Não podendo, pois, senão perder com o exame e a discussão, as religiões acham mais simples proscrever um e outra

14. Dessas divergências no tocante ao futuro do homem nasceram a dúvida e a incredulidade. Entretanto, a incredulidade dá lugar a um penoso vácuo. O homem encara com ansiedade o desconhecido em que tem fatalmente de penetrar. Gela-o a ideia do nada. Diz-lhe a consciência que alguma coisa lhe está reservada para além do presente. Que será? Sua razão, com o desenvolvimento que alcançou, já lhe não permite admitir as histórias com que o acalentaram na infância, nem aceitar como realidade a alegoria. Qual o sentido dessa alegoria? A Ciência lhe rasgou um canto do véu; não lhe revelou, porém, o que mais lhe importa saber. O homem interroga em vão, nada lhe responde ela de maneira peremptória e apropriada a lhe acalmar as apreensões. Por toda parte depara com a afirmação a se chocar com a negação, sem que de um lado ou de outro se apresentem provas positivas. Daí a incerteza, e a incerteza sobre o que concerne à vida futura faz que o homem se atire, tomado de uma espécie de frenesi, para as coisas da vida material. 

Esse o inevitável efeito das épocas de transição: rui o edifício do passado, sem que ainda o do futuro se ache construído. O homem se assemelha ao adolescente que, já não tendo a crença ingênua dos seus primeiros anos, ainda não possui os conhecimentos próprios da maturidade. Apenas sente vagas aspirações, que não sabe definir.

15. Se a questão do homem espiritual permaneceu, até os dias atuais, em estado de teoria, é que faltavam os meios de observação direta, existentes para comprovar o estado do mundo material, conservando-se, portanto, aberto o campo às concepções do espírito humano. Enquanto o homem não conheceu as leis que regem a matéria e não pôde aplicar o método experimental, andou a errar de sistema em sistema, no tocante ao mecanismo do universo e à formação da Terra. O que se deu na ordem física, deu-se também na ordem moral. Para fixar as ideias, faltou o elemento essencial: o conhecimento das leis a que se acha sujeito o princípio espiritual. Estava reservado à nossa época esse conhecimento, como o esteve aos dois últimos séculos24 o das leis da matéria

16. Até o presente, o estudo do princípio espiritual, compreendido na Metafísica, foi puramente especulativo e teórico. No Espiritismo, esse estudo é inteiramente experimental. Com o auxílio da faculdade mediúnica, mais desenvolvida presentemente e, sobretudo, generalizada e mais bem estudada, o homem se achou de posse de um novo instrumento de observação. A mediunidade foi, para o mundo espiritual, o que o telescópio foi para o mundo astral e o microscópio para o dos infinitamente pequenos. Permitiu se explorassem, estudassem, por assim dizer, de visu, 25 as relações do mundo espiritual com o mundo corpóreo; que, no homem vivo, se destacasse do ser material o ser inteligente e que se observassem os dois a atuar separadamente. Uma vez estabelecidas relações com os habitantes do mundo espiritual, possível se tornou ao homem seguir a alma em sua marcha ascendente, em suas migrações, em suas transformações. Pode-se, enfim, estudar o elemento espiritual. Eis aí o de que careciam os anteriores comentadores da Gênese, para a compreenderem e lhe retificarem os erros.

17. Estando o mundo espiritual e o mundo material em incessante contato, os dois são solidários um com o outro; ambos têm a sua parcela de ação na Gênese. Sem o conhecimento das leis que regem o primeiro, tão impossível seria constituir-se uma Gênese completa, quanto a um estatuário dar vida a uma estátua. Somente agora, conquanto nem a Ciência material, nem a Ciência espiritual hajam dito a última palavra, possui o homem os dois elementos próprios a lançar luz sobre esse imenso problema. Eram-lhe absolutamente indispensáveis essas duas chaves para chegar a uma solução, ainda que aproximativa.